- sabes porque não sabes muito sobre mim? porque é impossível ler um livro borratado, é impossível ler com exactidão um livro cujas páginas estão lavadas, entendes?
- onde erraste? não vejo. a tua bolha é a tua pátria, mas o que eu quero saber é quem entorna a tinta nas tuas páginas ou as lava.
- quem as lava? quem as pinta sou eu, quem as lava não sei. mas por vezes acordo e sinto que estive a dormir um ano. talvez possas usar as tuas capacidades para pintar um pouco este trajecto de vida para que deixe de ser parecido com um relatório cientifico e passe a ser mais como um romance.
- não deveríamos saber a uma altura destas quem somos? parece que toda a gente sabe. eu sei do que gosto. não o que sou. é estranho, não é? és assim também?
- sim, patrícia. às vezes nem isso tenho, cada vez mais perco isso. cada vez é tudo menos bom e menos mau e tudo caminha para o cada vez mais indiferente.
- eu estou a aprender a exteriorizar. uma das minhas principais características é a revolta, o achar tudo inadequado. sou utópica e espero sempre muito. mas há sempre um tempo em que desisto. desisto das pessoas, das instituições de tudo. mas nunca me encaixo, nunca sinto que pertenço. não falo, não digo o que penso porque acho que já não vale a pena e a verdade é que na maioria das vezes não vale, ninguém quer escutar. então, distancio-me de tudo. sou eu e eu. ajo distante, na minha, não me ligo a ninguém. mas na verdade eu não sou assim. sei agir assim, anular as minhas emoções. sinto alegria ou tristeza, histerismo ou depressão conforme quem vai ao meu lado, mas não sinto por mim. sou um camaleão de duas pernas. quando não está ninguém é um vazio assombroso, esse vazio que não é de outro se não de mim. ninguém desconfia mas sou um alvo fácil. para me proteger dos outros entro naquilo que acho que é auto-protecção quando na verdade é só mais a tombar para a auto-destruição.
- efeito espelho.

"não falo, não digo o que penso porque acho que já não vale a pena e a verdade é que na maioria das vezes não vale, ninguém quer escutar"
ResponderEliminarÉ verdade, mas o truque é falar, é opinar, é dizer tudo aquilo que achamos ser ou não ser verdade. O truque é fazermo-nos ouvir e irritar se assim tiver de ser. Há-de haver sempre alguém que nos quer escutar, mesmo que seja do outro lado do Mundo, mas a verdade é que existe sempre alguém que pense como nós e que defenda os nossos principios. Fala e opina, o truque está em sermos diferentes :D